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:: Peão na Sétima - Claudinei finalmente no xadrez
 
Calibrando o bodoque

Caros amigos do xadrez.

Bem sabem que não sou e, muito provavelmente, jamais serei enxadrista.

Invadi a praia de vocês casualmente quando, há pouco menos de três anos, meu filho Victor, hoje com dez, descobriu cheio de curiosidade e de fascínio, no fundo de um armário, um antigo jogo de peças reluzentes, de pouco uso, presente de

 
 

meu velho pai quando eu ainda era criança. Quis saber o que se “fazia” com elas e, desde então, sigo peregrinando nos fins de semana, aqui e acolá (. . . não muito longe porém) no rastro dos torneios, onde ele jura que se diverte. Bem . . ., antes que me corrijam, não vou negar: penso que também me divirto.

Durante este tempo, fiz inúmeros amigos e, talvez, uns poucos desafetos (. . . ou seria o contrário?) — estes últimos, possivelmente, uma decorrência de meu jeito franco, vociferante e um tanto truculento de ser, herança genética que carrego em meu sangue calabrês.

Seja como for, aprendi muito neste ambiente em que as cenas invariavelmente se repetem: crianças chorosas e pais nervosos — eu e o Victor protagonizamos várias delas —, enxadristas aflitos surrando relógios que lhes negam tempo, torneios que nunca começam na hora marcada, peões “sem dono” de jogos que ficarão eternamente incompletos, “loucos” que rodeiam a primeira mesa no afã de assistir à contenda dos favoritos e de, pretensiosamente, “descobrir” o lance salvador para, depois da seta caída, “ensinar a ambos como deveriam ter jogado”, etc., etc., etc.. Compreendi, por exemplo, por que este esporte encanta a todos a quem é devidamente apresentado e, por que, uma vez minimamente dominado, entra na vida de seus praticantes para nunca mais sair. Concluí: é o desafio permanente, a beleza e a arte que ele contém e que se renovam ao longo dos séculos.

Mergulhado neste ambiente de “duplos”, “cravadas”, e “descobertos” de que eu tão pouco entendo, acabei me tornando um crítico das organizações de torneios e das arbitragens. Muitas vezes sou incompreendido, mas tenho sempre procurado me informar antes de emitir opinião.

Moisés, este amigo do Xadrez Regional, tem sido uma das vítimas. Talvez a minha predileta. Erra bastante e não se apruma — o que não é novidade. Já fez de tudo para se livrar da minha crítica. Até mesmo me convidou para jogar “gratuitamente” em alguns de seus torneios ( . . . imaginem !). Recusei ao perceber a “manobra”: queria me ver o tempo todo de boca fechada, esperneando humilhantemente na última rodada, sentado à última mesa, com um escore “rosquinha”. Ele não desistiu. Levou os torneios para longe de Campinas, onde, como é sabido, dificilmente vou. Foi a Pirassununga, Itapira e outras, e logrou êxito em seu intento na maioria das vezes. Acontece que a distância também o incomoda, e, por isso, acho que passou a considerar outras alternativas.

Por estes dias saiu-se com uma nova: ofereceu-me este espaço em seu “site” para eu malhar o quê ou quem estivesse ao alcance. De novo percebi o truque: queria que eu apontasse meu bodoque para o outro lado e o deixasse em paz. “Aceito, Moisés” - respondi sem vacilar. “Mas com uma condição: você continua na mira, porque é um alvo grande ( . . . na verdade, gordo!), muito próximo e lento; por isso, facílimo de se acertar ! Topa ?”. Para minha surpresa ele topou. Não imagino o que pretende. Será que vai se corrigir ? Vai me aprontar alguma ? Está dando corda p’ra eu me enforcar? Veremos.

A idéia é: atuo como uma espécie de “ombudsman” na defesa dos interesses do xadrez e dos enxadristas. Refiro-me aos interesses individuais e também aos coletivos que, após pesquisas, consultas e análises, pareçam causas justas, meritórias de reflexão e dignas de publicação. Obviamente não se pretende que “Peão na Sétima” seja um espaço para troca de ofensas ou acusações, o “barraco da Dona Maria”. Ao contrário, espera-se que se torne um fórum para sugestões, reclamações e polêmicas. Enfim, um espaço para o debate público e aberto entre organizações de torneios, arbitragens e enxadristas, sem fronteiras geográficas e no qual prevaleça sempre o melhor argumento. Convido a todos a participarem, bastando para tal e por enquanto, dirigirem-se ao “Xadrez Regional” e solicitarem o encaminhamento da questão para esta coluna.

Também é importante destacar que a crítica jamais será pessoal. O objeto dela sempre estará no xadrez e as pessoas envolvidas estarão necessariamente entre aquelas por quem tenho apreço, respeito e admiração, senão uma grande amizade ( . . . espero que não cresça o número de desafetos . . . ). Portanto, os amigos que se cuidem porque os outros vou desprezar!

Não sei a razão do nome “Peão na Sétima”. Perguntem ao Moisés. Penso que seria mais fácil justificá-lo quando a coluna deixasse de existir: peão capturado ou irremediavelmente bloqueado. Em outros termos: ou os “censores” fecharam a coluna pelos seus “excessos” ou ela não deu o “Ibope” suficiente (. . . entenda-se: ninguém tinha nada a reclamar!). Ah . . . sim, não precisam me lembrar: ou o Victor fez opção pelo futebol.

Para inaugurar, uma flechada sem rumo certo, de olhos vendados (apostaria 10 contra 1 que vai acertar o Moisés, ainda que de raspão):

É correta a adoção de sorteio para a ordem de aplicação dos critérios de desempate? (prática tão usual, inclusive em torneios oficiais)

É possível o uso simultâneo da soma do escore progressivo e dos milésimos totais ou medianos?

Desde já, os árbitros “de plantão” ficam convidados a nos elucidar as duas questões.

No “site” da FIDE, para ser mais preciso no “Handbook, item C . 06, “Annex to the FIDE Tournament Regulations”, consta:


3. Application of Tiebreak System to different Tournament systems
The choice of the Tiebreak System to be used in a tournament shall be decided in advance taking into account the type of the tournament (Swiss, Round Robin, Teams, etc.) and the special structure of players to be expected in the tournament. For instance the applicaton of Tiebreak rules using the ratings of players is dubious in tournaments where the ratings are not available or not consistent or not necessarely correct (e.g. Junior/Senior tournaments)
Only one type of the three categories described above should be used for a given event.
For example : a) Sum of Progressive Score + b) Buchholz would be incorrect.
For different types of tournaments the Tiebreak Rules are recommended as listed below : . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


Traduzindo:

“ ……………………………………...........................................

3. Aplicação do Sistema de Desempate para diferentes sistemas de torneios

A escolha do Sistema de Desempate a ser usado em um torneio deverá ser decidido antecipadamente, levando-se em conta o tipo de torneio (Suíço, Round Robin, Equipes, etc.) e a estrutura dos jogadores esperados no torneio. Por exemplo, a aplicação das regras de desempate usando os “ratings” dos jogadores é duvidosa em torneios onde os “ratings” não estão disponíveis ou não são consistentes ou não necessariamente corretos (geralmente torneios de juniores ou seniors).

Somente um tipo das três categorias descritas acima deveria ser usada para um dado evento.

Por exemplo: a) Soma do Escore Progressivo + Buchholz seria incorreto.

Para diferentes tipos de torneios os critérios de desempate são recomendados como listados abaixo:

....................................................................................................”

Tudo indica, portanto, que o sorteio é vetado pela FIDE e que o uso dos diferentes critérios pressupõe que eles pertençam à mesma categoria. Conforme define a própria FIDE, existem 3 diferentes categorias: critérios de desempate usando os resultados do próprio jogador (soma do escore progressivo, por exemplo), critérios de desempate usando os resultados dos adversários (Milésimos, Sonneborn-Berger, por exemplo) e critérios de desempate usando “ratings”.

Assim, os critérios de desempate não apenas não deveriam ser sorteados, como não se poderia utilizar a Soma do Escore Progressivo juntamente com Milésimos Totais, Medianos, Sonneborn-Berger, etc..E isto temos visto com muita freqüência nos torneios.

Socorro arbitragem !!!!!!!!!!!!!!!!!

Na próxima vez em que nos encontrarmos, espero estar seguro da resposta para ambas as questões.

Até lá.

Claudinei Venturi (venturi@xadrezregional.com.br)

18 MAR 06

 
 
  • Espaço destinado ao propósito de estimular o debate dos problemas do xadrez brasileiro e de refletir as diversas tendências e opiniões. Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Xadrez Regional.
 
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