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:: Ivan Kuhlmann Nogueira
 
     Semana passada senti-me honrado ao ser convidado para escrever no Xadrez Regional. De uns tempos para cá, resolvi acompanhar o site, me interessei e comecei a participar de alguns torneios.
     Gostei do visual, das notícias e do interesse despojado. Precisamos de gente que faça as coisas com dedicação.
     Procurarei passar impressões, opiniões, experiências, etc. Gostaria que as pessoas se manifestassem.
iknogueira@uol.com.br

Resposta: Horácio Prol Medeiros
  Para quem gosta de xadrez...

     Meu avô me ensinou a mexer as peças quando eu tinha uns sete ou oito anos. Perdi a conta dos “pastorzinhos” que levei. Aos doze passei a ir ao extinto clube de xadrez Independente, perto do centro de São Paulo. Lá eu ficava torcendo quietinho para que meu pai ganhasse algum prêmio no relâmpago, o que geralmente garantia alguns doces ou salgados na doceira Paulista. Um dia não me contive: -Papai, caiu a flecha do seu adversário... Levei uma bronca, mas meu pai levou o ponto e eu os salgadinhos. Os de camarão eram meus preferidos!
     
     Em 1979 tornei-me sócio do clube de xadrez São Paulo. Tinha dezesseis anos. Meus olhos brilhavam quando via um mestre ou jogador bem forte. Nossa, estou perto de um mestre! Comecei a jogar os torneios. Quando resistia mais de vinte lances com uma dessas feras, já ficava contente. Nessa época, havia fortes jogadores de relâmpago, como o Cajal, o César Soares, o MI Antonio Rocha e outros. Eu ficava assombrado com a rapidez deles. Da minha “turminha” faziam parte o hoje MI Pelikian, o Giuseppe Ferrante (professor de xadrez), o Alexandre Mattos, o Antonio e o Carvoeiro. A gente fazia torneios, matchs e de vez em quando levávamos bronca por causa da bagunça.
     
     Bons tempos!

     Esse ambiente me contaminou. Desde então, não parei mais de jogar.

     Contei essa história para mostrar a importância do incentivo para os jogadores mais jovens. O gosto pelo xadrez não está necessariamente atrelado à obtenção títulos ou à necessidade de provar algo. A grande massa de enxadristas joga porque gosta. Conheço jogadores que pegam as últimas colocações nos torneios há mais de vinte e cinco anos! Mas então porque eles jogam? São masoquistas? Não, eles gostam de xadrez, gostam das amizades que fizeram, gostam do ambiente. Aceitaram seus limites.

     Qual a importância de fazer com que nossas crianças joguem xadrez?
     Queremos ter um novo Mequinho?
     Queremos ser os melhores do mundo dos pés à cabeça?

     Isso parece pouco provável. Haverá o surgimento de novos valores. Em alguns anos teremos novos GMS e os que estão aí conseguirão galgar mais alguns degraus. Mas sejamos realistas: O xadrez não faz parte de nossa cultura e não combina com nosso clima. Para muitos é um esporte de gente maluca.

     Devemos desistir? Claro que não. Devemos atrelar o xadrez e o seu desenvolvimento ao que realmente interessa. É sabido de sua importância na melhora do raciocínio e auxílio no aprendizado de outras matérias.

     Para começar deveríamos dar a direção das entidades do xadrez brasileiro a pessoas que realmente se interessam pelo seu desenvolvimento. Se for feito um trabalho de base, com dedicação e boa vontade, o surgimento de novos valores será uma conseqüência natural. Em um país como o Brasil é temerário viver de xadrez. Alguns conseguem dando aulas, vendendo livros e softwares, jogando por cidades, etc. Não é uma situação exatamente confortável. Da mesma forma é temerário que uma federação tenha alguns de seus dirigentes vivendo às expensas do xadrez. Sabemos que um trabalho bem realizado deve ter sua compensação financeira e não uma dependência. Infelizmente, para muitas de nossas federações, o xadrez virou apenas um negócio rentável.

     De uns anos para cá têm sido feitos vários torneios escolares, incentivados mais pelo patrocínio que possa vir das prefeituras, do que por algum interesse pelas crianças. Isso faz com que o dinheiro que entre decida qual será a competição “mais adequada” para os jogadores. Mas felizmente há boas iniciativas: Sábado passado estive no Bob`s da Avenida Ricardo Jafet aqui em São Paulo, onde a Liga de Xadrez organizou um torneio ativo.

     Havia quatro mestres internacionais e três mestres Fide participando, além de outros fortes jogadores. Não sou filiado a essa entidade, ainda. Causaram-me surpresa duas coisas: A primeira foi o fato de um torneio organizado por uma entidade de xadrez recém criada e pouco divulgada reunir tantos jogadores fortes em um torneio com prêmios nem tão atraentes assim. A segunda foi o fato de que várias pessoas manifestaram o apoio em relação a um tópico que coloquei na comunidade “xadrez profissional” no Orkut, chamado “A FPX anda pisando na bola”. Nele, coloco um e-mail que enviei à FPX no dia 12 deste mês. (ainda não foi respondido). Reclamo da não realização da final do circuito 21 min. referente a 2005. Cito o fato de eu ter jogado o campeonato paulista de Masters 2004 mais de um mês após a realização do Masters 2005, dentre outros absurdos.

    Vou citar dois exemplos recentes de total falta de profissionalismo da FPX: Do dia 14 a 18 de junho haverá em Taubaté o Campeonato Brasileiro Juvenil, divulgado pelo site Clube de Xadrez, dentre outros. A FPX não colocou essa competição em seu calendário e ainda marcou o Paulista sub-20 entre os dias 15 e 18 de junho (sem local definido), prejudicando as duas competições e, no mínimo, gerando dúvidas e confusão.

    O Brasil começou a participar da Olimpíada de xadrez em Turim. O site da FPX colocou a partida que o GM Vescovi jogou, bem analisada por ele. (uma ótima iniciativa), porém se esqueceu de colocar o resultado do match, coisa “sem importância”... Após pesquisar por alguns sites, consegui achar o resultado e o enviei para o site do Clube de Xadrez, que conseguiu publicar o resultado do match antes da FPX. Só não sei se o Gérson usou minha informação ou encontrou-a em algum site. A equipe feminina perdeu para a forte equipe da Índia por 3 a 0.

     Os jogadores que manifestaram apoio à minha iniciativa de reclamar da FPX não o fazem abertamente, pois têm medo de serem punidos ou perseguidos. O fato de eles prestigiarem outros torneios que não os da FPX é um exemplo de que entidades que levam o xadrez a sério e respeitam os jogadores, acabam tendo um apoio natural da parte deles. Aos que jogam por prazer, devem ser proporcionados momentos para que façam isso de uma forma acessível e agradável. Aos profissionais que dependem do xadrez tem que ser dada a oportunidade de se valorizarem e incentivarem novos valores para o xadrez brasileiro.

Ivan Kuhlmann Nogueira - 23/05/2006

 
  • Espaço destinado ao propósito de estimular o debate dos problemas do xadrez brasileiro e de refletir as diversas tendências e opiniões. Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do Xadrez Regional.
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